Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes

São Paulo (Brasil), 1960.
Es músico, poeta y artista visual. Integró los grupos musicales Titãs y Tribalistas. Solista desde 1992, ha lanzado 19 álbumes. Tiene varios libros publicados en Brasil y Portugal, España, Argentina y Uruguay. Participó en exposiciones de poesía visual y realizó exposiciones individuales, entre ellas Palavra em Movimento, que reunió 30 años de su producción gráfica.

Poemas

a boca
oca
onde fica
a língua
índia
ainda
virgem
selva de
linguagem
guarda
de tocaia
a margem
da aldeia
da ideia
que afia
o gume
da seta
cega
que apague
o lume
da lua
vaga
e atraia
o dia
em que diga

o que fala

não tenho saudades
do que vivi
porque tudo
está aqui

encorpado
dentro de mim
como um fígado
um pâncreas
um rim

não tenho saudades
do que vivi
(vi ouvi sonhei senti)
pois já se tornou
o que sou

não tenho saudades
do que vivitenho saudades do que viveram
aqueles com quem convivi

não do que vi, do que viram
não do que ouvi, do que ouviram
do que sonharam, sentiram
as pessoas que perdi

um deus efêmero
um deus com sexo
um deus com gênero
e que envelhece
um deus com fim
um deus assim
merece prece

um deus que conta
o seu segredo
um deus que apronta
mas tem medo
um deus que erra
e recomeça
merece reza

um deus que sofre
e que se alegra
um deus com sorte
e sem promessa
um deus que pensa
um deus ateu
merece crença

um deus talvez
volúvel deus
um deus que ovula
todo mês
um deus que paga
sua comida
merece a vida